O Setembro Amarelo é a maior campanha brasileira voltada àconscientização sobre a prevenção do suicídio e à valorização da vida. Realizada nacionalmente desde 2015, a iniciativa é organizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). O mês foi escolhido porque o dia 10 de setembro marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Tenho, em atendimentos, percebido uma crescente no número de pessoas com ideações suicidas. Viver traz a sua complexidade individual, haja vista que a existência humana é tecida por fios contrastantes: a leveza do riso, de momentos agradáveis com parentes e amigos,mas também tem a gravidade da dor, o encanto da descoberta e a dureza incontornável das perdas. Fomos educados para a permanência, para a ilusão de um chão sempre firme. De uma vida sem percalços, em uma positividade tóxica, que nos leva a comparações sem sentido, pelas telas dos celulares.
No entanto, a vida é movimento e travessia. Ela nos confronta com tempestades que não previmos, desvios que não escolhemos e desertos internos onde o silêncio se torna ensurdecedor, e as lágrimas, rios não vistos. Nesses momentos de penumbra, o desafio não é resistir rigidamente até partir, mas aprender a arte da flexibilidade — como o junco que se dobra inteiro diante da ventania para preservar a própria raiz.
Não tenho dúvidas de que o grande desafio é se adaptar aos reveses não como um conformismo, uma passiva resignação. Não é isto. É a inteligência da alma em reconhecer que, quando a rota original se fecha, o horizonte não deixa de existir, ele apenas exige novos passos, novos olhares e a coragem de reimaginar o futuro. A dor, por mais avassaladora que se apresente,é um estado da jornada, não o seu destino final. O sofrimento fecha o campo de visão e faz o presente parecer um túnel infinito, mas a vida carrega em si uma capacidade inusitada de regeneração,desde que haja espaço para o tempo agir e apoio para sustentar os pés cansados.
É nesse ponto de inflexão que o Setembro Amarelo ganha seu significado mais profundo. Longe de ser apenas um mês no calendário e um laço na lapela, o movimento é um lembrete vivo do valor inestimável da permanência. A cor amarela surge como um farol na neblina, um sinal de que a luz ainda existe, mesmo quando nossos olhos temporariamente perderam a capacidade de enxergá-la. A nós que lidamos com a dor humana, o reforço de que a alma não pode se sentir cansada, aos que ainda estão impermeáveis à dor do outro, a reflexão de que vivemos em um labirinto traçado por dores e esperanças, é certo, mas não sabemos com precisão o que está na próxima virada de esquina.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.