Tenho ouvido, em verdade desde sempre escuto, muitas pessoas dizendo que estamos vivendo tempos difíceis. Entendo que cada tempo tem as suas nuances de situações estranhas, mas também de benesses. No entanto,eu que vi e aprendi a datilografar em máquina de escrever manual ser substituída por elétrica, e hoje temos conversas com plataformas, não me surpreendo com nada.
O caso mais recente e que viralizou sobre o avanço tecnológico envolve uma startup da Califórnia (EUA) chamada Just Like Me, que em tradução livre seria algo tipo igual a mim. A plataforma oferece videochamadas com um avatar interativo de Jesus gerado por Inteligência Artificial, com aparência inspirada no ator Jonathan
Roumie (da série The Chosen). A empresa cobra US$1,99 por minuto de conversa (cerca de R$10/minuto) ou uma assinatura mensal de US$49,99 com direito a um limite de tempo pré-determinado de chamadas.
O avatar em tempo real pisca, responde por voz e tenta manter coerência com base em passagens da Bíblia e sermões cristãos em que foi treinado. O serviço gerou forte controvérsia e debates na internet e entre líderes religiosos. Críticos falam do aproveitamento da fé e da solidão ou vulnerabilidade das pessoas, enquanto os criadores defendem a ferramenta como um “suporte de esperança”. Existem também aplicativos mobile mais simples (como o Chat With Jesus e outros na Play Store e App Store) que funcionam via texto em modelos grátis ou com assinaturas pagas, mas a cobrança “por minuto” por vídeo tem chamado a atenção.
O que vemos, em verdade, é que essa tecnologia revela uma ferida contemporânea profunda: a epidemia da solidão. Pessoas em sofrimento buscam nesses sistemas o acolhimento e a validação que muitas vezes não encontram em suas redes de apoio. A máquina simula empatia com respostas sob medida, criando uma dependência psicológica dolorosa quando a ilusão se desfaz, sem oferecer a cura real que só o autoconhecimento oferece. Alguns amigos meus têm me encaminhando uma espécie de relatório digital a respeito das suas personalidades, em conversa com plataformas, sempre perplexos achando extraordinariamente condizente com as suas personalidades. Efetivamente, fingem em uma ilusão de acolhimento que se envolvem, por uma necessidade de escuta, de verdadeira interação.
Pessoalmente, não resisto a nada de novo, haja vista que uma onda não é retida por mãos. É necessário, todavia,
que tenhamos claro em nós mesmos as vulnerabilidades de nossas feridas, a fim de que elas não sejam manipuladas de forma alguma. O risco é trocar o transcendental por um eco de dados projetado para agradar, esvaziando o sentido do conhecer a si mesmo, na busca dos deslindes de nosso embrincado viver nas relações da vida.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.