Não mexa com a Santa

Estamos vendo Brasil afora uma discussão sobre ser N. Senhora Aparecida, padroeira de um país laico. Essa discussão, no entanto, barrou e barra em uma bendita e poderosa força silenciosa: na identidade do brasileiro que ultrapassa os códigos de leis e os debates jurídicos – é a força da devoção popular. Quando a Constituição de 1988 declarou o Brasil um Estado laico, garantindo que o Poder Público fosse neutro e acolhesse todas as crenças, ela não apagou o afeto que une o povo à sua própria história. E nenhum símbolo traduz tão bem essa união entre fé, afeto e memória coletiva quanto a imagem de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil.

Declarada padroeira oficial do país por lei em 1930, a imagem negra resgatada por pescadores nas águas do Rio Paraíba do Sul tornou-se muito mais do que um símbolo católico. Ela se transformou no retrato da esperança dos simples, no refúgio das dores do povo e na própria representação da brasilidade. A presença de sua imagem e a celebração do seu dia não afrontam a laicidade do Estado, porque não se trata de impor uma fé, mas de acolher a memória afetiva de gerações.

O Supremo Tribunal Federal, quando resguarda a permanência dessas tradições e a legitimidade de datas e símbolos históricos, reconhece que o Estado laico não precisa ser um Estado sem alma. A laicidade brasileira não nasceu para ser fria ou combatente, mas sim generosa e respeitosa com as raízes de sua gente. Retirar a figura da Padroeira do imaginário oficial ou dos espaços públicos seria como tentar apagar a memória dos nossos avós, as orações sussurradas no interior, as romarias de pés descalços e a fé singela que sustentou tantas famílias nos momentos mais difíceis.

Nossa Senhora Aparecida, e falo com os meus 50 anos de espiritismo, permanece no coração do Brasil porque sua figura fala de acolhimento,proteção e maternidade – sentimentos que abraçam até mesmo quem não compartilha do mesmo dogma. A Constituição de 1988 garante que a lei seja justa e igual para todos, independentemente da religião, mas a cultura e o afeto garantem que a nossa história continue viva. Mesmo em um país plural, onde diferentes vozes, crenças e origens se encontram, a figura da Padroeira muitas vezes transpõe as barreiras da própria religião para tornar um abraço acolhedor.

Para além dos dogmas, a imagem da Santa negra encontrada nas águas fala sobre a resistência do povo humilde, o acalento das mães brasileiras e a busca universal por dias melhores. Respeitar essa presença no Brasil pós-1988 não é diminuir a fé do outro, mas reconhecer um ponto de afeto comum que mora no imaginário de milhões de famílias, independentemente da forma como cada um conversa como sagrado. E aí de quem se atreva a alguma ação contrária. 

José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.

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