O cinismo político

Esses dias tenho me lembrado muito das aulas de Filosofia com o professor Pinheiro, quando falava que na Grécia Antiga, o cinismo, que nasceu com Diógenes de Sinope, famoso pelo seu encontro com o jovem imperador Alexandre, e também porque andava pelas praças de Atenas em pleno dia com uma lanterna acesa. Quando perguntavam o que estava fazendo, respondia: “Procuro um homem honesto” (ou um “homem de verdade”), debochando da hipocrisia da sociedade ateniense. Voltando: o cinismo era como uma crítica radical à hipocrisia e às convenções sociais. O cínico original renunciava aos bens materiais e ao poder para escancarar as contradições da sociedade.

Na política contemporânea, contudo, o termo sofreu uma transmutação perversa: o cinismo deixou de ser a busca pela verdade despida de subterfúgios para se tornar a arte da enganação calculada. O político cínico moderno não esconde suas incoerências, ao contrário, ele as ostenta com naturalidade. A perversão do conceito se consolida quando discursos morais e promessas mirabolantes passam a ser utilizados para mascarar decisões pragmáticas ou arbitrárias.

Um dos sintomas mais claros desse cinismo está em um peso e duas medidas aplicadas a princípios fundamentais, como a liberdade de expressão. O debate público se transforma em um tribunal assimétrico: quando o discurso do “meu lado” extrapola os limites, invoca-se a liberdade irrestrita e a sacralidade do debate público, e quando a manifestação vem do “outro lado”,ela é prontamente rotulada como censurável, antidemocrática ou antiética. A régua moral não é o direito universal, mas o interesse de conveniência de quem detém a narrativa.

A Encenação ganha contornos místicos quando se apela, por exemplo, para saídas mágicas perante problemas estruturais. A criação hipotética ou real de estruturas reluzentes –como um eventual “Ministério da Prosperidade” – simboliza essa retórica da ilusão. Vende-se a ideia de que a assinatura de um decreto ou a criação de uma canetada ministerial funciona como um condão mágico capaz de transformar a realidade econômica e livrar a população das dificuldades. Trata-se do fetiche da burocracia: a promessa de enriquecimento, sem compromisso social.

A grande contradição surge quando essa mesma engenharia do otimismo se omite a prestar informações, por exemplo, sobre a realidade contábil, para fazer “tesouraço” na economia, sem mexer nos necessários programas sociais. A mágica da prosperidade estatal exige a suspensão do espetáculo da fiscalização. O fato é que quando a política abraça a forma cínica, a verdade deixa de ser o compromisso central da vida pública. A liberdade se torna seletiva, a economia vira ilusionismo e a responsabilidade com o dinheiro coletivo se dilui na retórica do palanque eletrônico e das redes sociais. 


José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.

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